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António Raminhos: “Não tenho vergonha na cara”

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Se a comédia é mesmo como uma droga, António Raminhos experimentou e ficou agarrado. Agora, anda a repetir as doses com O Melhor do Pior – de norte a sul do país.
Se tem mesmo piada? A Mais Superior entrevistou o humorista, mas continua sem poder para chegar a essa conclusão… Afinal, pelas palavras do mesmo, “Podes ser o maior, mas vai haver sempre um gajo a dizer que és um m*#%as!”

Há algum ingrediente fundamental para cozinhar um bom humorista?

Existe, sim. A genuinidade. Ser fiel àquilo que somos.
Quando vais fazer um espetáculo de stand up, as pessoas sentem uma maior ligação quanto mais genuíno tu fores. Vejo muitos comediantes a contar histórias que não são particularmente engraçadas, mas só a maneira como eles as contam fazem com que tenham imensa piada! Percebe-se que estão a falar de situações que os incomodam mesmo!

Sempre tiveste essa genuinidade?

Antes, eu deixava-me afetar demasiado por aquilo que os outros pensavam de mim. Ficava a martirizar-me com o porquê de não gostarem do que eu fazia. E às vezes nem é só a questão de não gostarem… Eu questionava-me acerca do motivo das pessoas serem tão agressivas.
Até que houve uma vez em que um amigo meu, o comediante Rafinha Bastos, me disse algo que nunca mais me esqueci: “Cara, você não pode mendigar a piada. Tem de ser genuíno”. Faz muito sentido.
Não posso criar a pensar naquilo que as pessoas vão gostar. Tenho de ir atrás daquilo que é meu. Se tenho pessoas que vão aos meus espetáculos é por isso! Não é por eu ir atrás delas, mas por elas virem atrás daquilo que eu penso.
Muitas vezes, só penso aquilo que a maioria das pessoas pensam – só que eu não tenho vergonha na cara. E digo tudo. Como os malucos.

 

Podes contar-nos algo acerca do teu processo criativo?

Para o mundo da comédia, até me considero um indivíduo disciplinado. Tenho amigos que não têm a rotina de escrever, escrevem em cima da hora ou arriscam ir para palco sem saber bem o que vão dizer.
Quando me surge algo, aponto nos rascunhos do email. O problema disso é que depois escrevo cenas que, quando vou reler, já nem sei o que significam. Tipo “Gatos que miam demasiado alto”. E eu fico “Han?! O que queria eu dizer com isto?”.
Ontem meti-me dentro do carro, fui para ao pé da praia e revi as ideias novas que andava a apontar. Já lá tinha muita coisa, mas lembrei-me de outra cena completamente diferente e comecei a escrever no bloco.
Escrevi uma data de folhas, estava com aquela genica de criar. No fim, peguei naquilo e pensei “Pá, isto se calhar até tem graça!”. Depois é um longo processo – que varia entre mostrar a alguém e essa pessoa curtir, reler e achar que é fixe, depois voltar a achar que não presta.
No fim, resumo tudo por tópicos. Vou dizendo o texto e tentando interiorizar.

“Interiorizar”, nesse sentido, é quase como “decorar”?

Não. Nunca deves decorar as piadas.
Fazia isso no início, quando comecei. Decorava tudo porque tinha medo de me esquecer.
Agora não, foco nos tópicos e em certas palavras específicas. Sabes que vais falar de determinado tema e que queres tocar em certos assuntos, então escolhes palavras que façam mesmo a diferença.

Quando foi que percebeste que tinhas piada? Chegaste a essa conclusão sozinho ou alguém te disse?

Nunca soube muito bem o que queria fazer. Estudei Jornalismo porque gostava e parecia-me porreiro. Adorava desporto e fui para Jornalismo Desportivo, comecei a escrever e escrevia bem! E sempre fui aquele da gajo da galhofa, quando trabalhava no jornal era eu que fazia o pessoal rir…
Eu sempre gostei de comédia, mas era na apenas na ótica do utilizador: sempre vi Jerry Lewis, Monty Python, Mel Brooks. Só quando me vi no desemprego é que me apercebi do quanto adorava esta área. Em 2010 ou 2011, estava na Madeira com o Carlos Moura e o Pedro Miguel Ribeiro e fizemos uns 11 espetáculos em 12 dias. Foi aí que me apercebi “É isto mesmo! É por aqui que me quero meter! E sabia que queria fazê-lo neste registo, de ser eu próprio – porque parvo sempre fui!

E como foi criar um estilo de vida centrado no humor?

Todos nós temos comédia na vida, o problema é fazê-la todos os dias. Lidar com quando te dizem “Olha, agora sê espontâneo, improvisa aí, conta uma piada!”.
Sim, eu fiz muitos trabalhos dos quais não gosto. Mas tenho de encarar como isso mesmo: trabalhos. Têm de ser feitos.
Quando as pessoas que me veem na televisão, estão a ver um registo diferente de um espetáculo de stand up. No espetáculo sou eu, genuíno, a dizer as cenas como as quero dizer. Na televisão estou condicionado ao canal, ao público…
Ontem estava a falar com o Guilherme Duarte e chegámos à conclusão que isto é masoquismo. Isto que um gajo faz é ser masoquista. Não percebo o porquê de fazermos humor, não dá para entender.
O Carlos Moura dizia algo que é muito verdade. “Fazer comédia é como heroína. Experimentas a primeira vez e ficas agarrado.” Depois, andas sempre à procura daquela sensação, da adrenalina do processo, do sentimento agradável do final. É um misto de emoções, mas é masoquismo. Experimenta pores-te à frente de uma pessoa, sozinho, com um texto que não sabes se tem piada ou não. É uma f*da.

Sentes que as pessoas são muito fundamentalistas na hora de tecer opiniões?

Sim. As pessoas apontam logo: “Este gajo é um m*rdas!”. Lá por elas acharem que eu sou mau, não quer dizer que eu seja um m*rdas. Elas é que não gostam.
Para gostar de uma coisa, não tenho de desvalorizar as outras. Cada percebo mais que as pessoas – ao dizerem que este gajo é mau, que aquele livro não presta, que esta música é uma bosta – o estão a fazer para se valorizarem a elas mesmas. É uma situação muito egóica.
Como o Conan Osiris! Eu gozei com o gajo e ele levou na boa! É do meu bairro e tudo. Se eu gosto? Não seim nem quero saber! Ele está a fazer o que lhe apetece, está a ser disruptivo. Há quem goste e quem não goste. E é só isso! As pessoas chegam imediatamente com julgamentos “Isto não é arte!”. Não faz sentido!
É como aquela malta que, há uns anos, se reuniu em volta de uns óculos que um puto se esqueceu no chão de uma galeria de arte. Tudo a tirar fotos, “Ena pá, grande cena!” , todos a acharem que era uma instalação… Lá está o ego! As pessoas fazem isto para se valorizar a si mesmas, para poderem pensar “Sim senhor, eu sou mesmo um gajo que entende bué destas cenas”.
Com a comédia, acontece o mesmo. Há pessoas que só gostam de humor negro porque se acham muito dark e edgy, alternativo e “à frente”, porque apreciam gajos que falam de cancro e deficientes e não sei quê. E depois dizem logo que os outros são todos uma porcaria!
Eu posso gostar de uns e não ter de dizer que os outros não prestam.

Andas de norte a sul com O Melhor do Pior. Sentes muita diferença na plateia, consoante os locais do país?

É engraçado. Depois do espetáculo estar rotinado, já sei mais ou menos onde as pessoas se vão rir. Mas há públicos que me apanham na curva, pessoas que se riem em sítios que não é suposto! Acho imensa piada.
Também já me aconteceu uma situação caricata enquanto fazia As Marias numa sala do Alentejo. O público era muito sisudo, eu falava e todos continuavam sérios… De vez em quando, lá esboçavam um pequeno sorriso…. E eu juro: se tivesse sido a minha primeira vez, eu tinha desistido. Mas depois contei à Ana Bola e, na altura, ela disse-me que já lá tinha feito um espetáculo e que tinha sido exatamente a mesma coisa! Era mesmo das pessoas! É que, no final, eles vinham ter connosco e diziam “Adorei o espetáculo! Foi muito divertido”. Então e não se riram porquê, pá?!

Não te vou perguntar qual é o limite do humor, não… Mas quero saber quantas vezes já te perguntaram isso.

Algumas. Perguntaram mais vezes ao Rui Sinel de Cordes, de certeza (risos).
Não foi essa a pergunta, mas quero dizer que o limite do humor é uma boa piada. Se as pessoas riem, está perfeito.

As Marias já têm uma veia de humoristas?

São muito brincalhonas e riem-se das minhas piadas – daquelas que percebem, claro. Adoraram o lip sync que fiz da Elsa. Mas não me parece que vão seguir isso, no futuro. Uma quer ser pintora e tatuadora, a outra quer ser esteticista.

O que mais te irrita nesta área da comédia?

Chateia-me que as pessoas não entendam que podem, simplesmente, não gostar de um indivíduo. Irrita-me o ódio visceral, desmedido e desnecessário.
Se não gostam de mim, pronto, sou logo um m*rdas! Em Portugal, as pessoas têm muito o hábito de idolatrar. Há dois ou três gajos que, qualquer coisa que façam, são sempre geniais – e podem nem ser! Mas instituiu-se que era assim, pronto.
Depois tens pessoas com imenso valor, umas mais e outras menos conhecidas, que acabam por sofrer bastante com isso.
Há pessoas de quem podes não gostar, mas que tens de reconhecer o mérito do seu trabalho. Artistas que enchem salas, que esgotam espetáculos. Mesmo que não admiremos o que fazem, tenho de lhes reconhecer o mérito. Não faz sentido dizer que é mau. Quem sou eu julgar dessa forma?
O mundo da comédia vive muito dos egos. Duas situações que podem iniciar uma terceira Guerra Mundial são o conflito entre a Coreia do Norte e os EUA e pores a jantar, na mesma mesa, doze comediantes.

Sentes muita pressão para não cometer erros?

Sinto, e essa enorme pressão de ter de ser sempre bom não devia existir. A verdade é que temos de testar aquilo que escrevemos.
Uma vez fiz um open mic em Los Angeles, numa sala cheia de comediantes. Todos os gajos que entraram antes de mim iam na descontra! Se ninguém se ria, passavam à próxima. Quando acabavam, pegavam no bloco, apontavam, iam ter com outros comediantes, discutiam o que resultava ou não. No fundo, entendiam que aquilo era uma escola, um campo de treino!
E eu, que era desconhecido ali e estava a atuar fora do meu idioma, que devia ser o gajo mais descontraído, estava a colocar uma pressão gigante e desnecessária em mim!

E quanto às pessoas que ficam ofendidas?

Ai… Eu sofria muito com isso… Especialmente com os vídeos das miúdas. Diziam que era exploração e isso afetava-me, houve uma altura em que sofria muito com isso. Fazia-me confusão que as pessoas não entendessem que quem é pai faz estas brincadeiras diariamente, que a única diferença era que eu filmava.
As pessoas metem-se muito na vida dos outros, para não terem de tomar conta das suas. É mais fácil apontar o dedo do que adotar uma posição introspetiva, passar tempo contigo próprio. As pessoas estão cada vez mais ligadas à internet, às redes sociais, ao faz de conta. Porque é mais simples pôr tudo para fora do que parar um bocadinho e pensar no que estou a sentir.

Alguma vez sentiste que não podias dizer ou fazer aquilo que querias?

Já me aconteceu fazer algo e dizerem-me “Hmmm opá, isso não!”. Experimentava porque achava que ia ser muito fixe e depois era isso. Se sentia, por vezes, que ia ser abusado? Sim, mas tinha de experimentar! De resto, quem escreve comédia já está um pouco auto-regulado.

Preferias: Ver o Benfica a ganhar na Final da Liga dos Campeões, no meio da festa, ou nunca mais poderes ver um jogo mas seres considerado o Melhor Humorista de Portugal?

Benfica na Liga dos Campeões. Nem discuto!
É uma questão de ego. O Benfica é universal! É impossível ser considerado o maior Supra Sumo da Comédia: vai haver sempre aquele gajo que chega e diz “Ehn, ele não é assim tão bom! Aquilo que ele fez naquele ano não teve lá muita piada!”.

Top 5 made in Portugal para António Raminhos:

  • O cozido à portuguesa… Apesar de já não comer carne, o cozido é uma boa recordação. Como as couves!
  • A Sofia Ribeiro.
  • A nossa capacidade para falar qualquer idioma – mesmo sem falar. Falar devagarinho, meter um sotaque espanhol….
  • O “desenrasca”, o “dar um jeitinho- É uma cena muito portuguesa e que nos dá mesmo muito “jeitinho”.
  • Os doces conventuais. Tudo com ovos, só ovos.

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