Connect with us

A Tua Revista

A “Luz” interior de Cuca Roseta

Publicado há

em

Ela é uma das principais vozes da nova geração do fado, e mistura a tradição deste género musical bem português com os ritmos da pop, do Brasil e de África. Cuca Roseta lança agora Luz, o quarto disco de originais e o mais biográfico até à data, e conversou com a Mais Superior sobre o álbum, a carreira e a relação especial que tem com os jovens.

Li que Luz é um disco biográfico. No sentido em que falas de ti e da tua vida?
Acho que sim. Acho que falo da minha vida e acho que vou buscar todos os géneros musicais que me influenciam. Eu oiço muita coisa para além de fado e há muitas canções que me tocaram ao longo da vida e que até hoje nunca tinha conseguido gravar, por uma razão ou por outra. Há sempre repertório que fica para trás, e desta vez quis mesmo ter estes temas que falam de mim e que, mais que falarem da minha vida, são temas dos quais gosto muito.
Acho também que os concertos têm muito a ganhar quando o artista canta temas que fazem realmente parte de si e que o emocionam! Porque quando nós sentimos, as pessoas que nos estão a ver e a ouvir também sentem.

Quais são os temas que mais têm a ver contigo neste disco?
O Alecrim, por exemplo, é uma das canções que me acompanha desde pequenina, tal como a Rosinha da Serra D’Arga, porque sempre gostei de folclore. A Triste Sina é um dos meus fados preferidos de sempre e que nunca tinha gravado, e todos os restantes temas que são novos também me dizem muito e foram compostos por gente amiga. Fiz uma parceria espetacular com o Pedro Silva Martins na Balelas, em que eu compus a letra e ele a música, e a Carolina Deslandes, que me conhece muito bem, também escreveu um tema para mim – e foi aliás a primeira pessoa a fazê-lo. Entre outras pessoas e outras colaborações, há também temas escritos por mim obviamente, porque o poeta escreve aquilo que viveu.
Resumindo, é um disco biográfico porque me identifico verdadeiramente com todas as canções que lá estão.

Depois da pena, da raiz e da água, agora a Luz. Todas elas são símbolos da Natureza, mas será que a Luz também reflete o momento atual da tua vida?
Por acaso não tem diretamente a ver com a minha vida, foi coincidência! (risos) A verdade é que eu já sabia que este disco ia ser sobre luz – porque eu procuro sempre estes elementos – tal como já tenho uma ideia de que o próximo será sobre arte. Tento encontrar um conceito desde o início, porque gosto de definir o título sobre o qual os meus compositores (e eu própria) vamos escrever. É isso que cria o fio condutor, e as músicas que não encaixem nele acabam por não ficar.
A Luz é para mim uma luz interior que eu procuro desde sempre alimentar, um lado espiritual que eu tenho. Para vivermos bem no dia a dia considero essencial termos tempo para nós mesmos, e acho que o fado é uma via para isso. Sou católica, pratico yoga e taekwondo, faço meditação e caminhadas, mas o fado é algo muito espiritual e que faz parte de mim todos os dias.

“Posso fazer música mais “fora”, mas o que interessa é que seja Cuca. Sermos nós próprios é a única forma de tocarmos os outros com a nossa música.”

E quando acedes ao fado que está dentro de ti, não é um fado tradicional que encontras. Tu até querias fazer um disco de fado mais tradicional, mas não conseguiste…
Eu nunca fui fadista tradicional, mas realmente gostava que este disco tivesse sido apenas sobre os fados que me tocaram mais, aqueles que eu canto há anos. No entanto foram começando a aparecer outros temas com que me identificava mais, e no final acabaram por ficar apenas três ou quatro… Mas mesmo esses nunca foram tradicionais, porque eu cantava muito Amália e a Amália nunca foi tradicional e foi até bastante criticada por isso na época.

Basta ouvirmos o teu disco para percebermos que há ali ritmos pop, do Brasil, de África… Tudo isso encaixado no fado.
Sim, sem dúvida. Eu sigo o meu instinto e o que me vai no coração, e pouco me interessam os rótulos dados à minha música. Se olhar para a canção que a Carolina Deslandes escreveu para mim, aquilo é marcadamente pop e eu não costumo gostar de cantar pop. Mas aquela música e aquela letra tocam-me de uma forma muito especial e fazem-me lembrar as canções que eu ouvia quando era criança, porque são quase de embalar.
É muito “fora” mas o que interessa é que seja Cuca. E até posso ser criticada, mas prefiro ser eu própria do que andar a inventar outra pessoa qualquer. E sermos nós próprios é a única forma de tocarmos os outros com a nossa música, que é no fundo a nossa missão.

Em janeiro de 2018 vais editar também um livro de poemas. Fala-nos sobre ele.
Eu sempre li muito e escrevo poesia desde pequena, mas nunca a partilhei. Até que comecei a ter pessoas a perguntar-me porque não cantava os meus poemas, entre elas o Gustavo Santaolalla. E foi muito giro quando as peças encaixaram, e quando eu decidi sentar-me a uma mesa e reunir os milhares de poemas que já escrevi para escolher aqueles de que gosto mais. Acabei por elencar 80 poemas, todos da minha autoria, que publico agora em livro. Nunca sonhei fazê-lo por achar que não tinha capacidade para isso, mas aprendi que o importante é seguir o meu coração, e é um orgulho enorme tê-lo feito. Um livro de poemas é algo lindo, e provavelmente quando lançar um novo disco também editarei um novo livro! (risos)

Como é a relação dos jovens universitários com a Cuca? Sentes que há interesse da parte deles na tua música?
Sim, sem dúvida! É interessante constatar – e consigo fazê-lo não só nos concertos mas também nas redes sociais – que o meu público é muito mais jovem do que o público de fado convencional, e do que o público de amigas minhas como a Ana Moura ou a Gisela João. Tenho famílias inteiras a ver-me, mas diria que são os jovens dos 15 aos 30 anos que mais marcam presença nos meus concertos!

E atribuis isso a quê? É o teu fado que é mais eclético ou são os jovens que têm hoje uma relação diferente com o fado?
Eu acho que tem muito a ver com esta nova geração de fadistas. Começámos a ser mais nós mesmas e o fado deixou de ser cantado por alguém de xaile e vestida de preto. As letras também deixaram de ser tão pesadas como eram, e introduzimos temas que levam os jovens de hoje a identificar-se muito mais com o fado. Acho que o fado sempre chegou a toda a gente, a imagem do fado é que não.

[Entrevista: Tiago Belim]
[Fotos: Sony Music Portugal]

Publicidade
Clica para comentar

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *