Encontrou-se com a Mais Superior junto à saída do metro de Chelas. Levou-nos pelos caminhos do bairro – cujo nome muitos tentam apagar e substituir por Marvila -, enquanto respondia a várias pessoas que o conheciam e cumprimentavam. Ali, nas ruas que o viram crescer e tornar-se o nome incontornável do Hip Hop que é hoje, não se trata de Sam The Kid: é o Samuel Mira.
Continuas a achar que os “rappers hoje em dia são como a pornografia”?
Claro. O que queria dizer era que cada vez havia mais rappers e essa rima saiu em 2006… Em 2018 a quantidade é ainda maior. Há uma oferta em demasia. Associei isso à indústria da pornografia, porque antes dela havia muito pouca oferta e isso fazia com que as pessoas tivessem de se cingir ao que existia. Hoje em dia, podes encontrar de tudo, cenas que vão ao encontro dos teus interesses específicos. Assim acontece com o rap também. O que não quer dizer que seja tudo pessoal que tem knowledge sobre a cultura Hip Hop. Apenas significa que usam o rap para fazer as suas músicas.
Hoje é mais fácil ser rapper ou mais difícil?
Existem os dois lados da moeda. É mais fácil chegar às pessoas, porque já não há necessidade de teres um intermediário. No meu tempo, era preciso mandar uma maquete para a rádio, para um programa específico sobre a cultura hip hop, para que os ouvintes dessa cultura pudessem ouvir a minha música. Além disso, precisavas de uma editora. Agora não, és independente – graças à internet e às redes sociais.
Mas, derivado à oferta ser em demasia e haver uma enorme competição, também se torna mais difícil sobressair. São milhares de temas a aparecer todos os anos, o Hip Hop está muito popular como forma de expressão. Os miúdos perguntam-me “Como faço para sobressair? Qual deve ser o próximo passo?”, mas também não lhes sei responder… Já nada é como antes.
Eu gosto de ser romântico e acreditar que, se fores mesmo talentoso, a mensagem vai passar. Até pode ser um processo lento e gradual, mas é assim mesmo. Querias logo passar para o degrau 22? Não, sobe degrau a degrau e saboreia cada um deles. Só assim vais olhar para trás e conseguir sentir orgulho do teu percurso.
Sempre soubeste que o teu futuro ia passar pela música ou ela surgiu como uma rota alternativa no caminho?
Tirei um curso de Audiovisuais. Nesse tempo, já ia fazendo as minhas experiências, músicas, maquetes… A paixão pelo Hip Hop existiu sempre e eu queria ser interventivo, contribuir, criar algo.
Em 1999, lancei o primeiro álbum e deixei os estudos. Foi o momento de viragem. Talvez seja um desejo de pessoa mimada, querer tudo à minha maneira. Mas percebi que a saída que aquela formação me daria podia ser apanhar cabos de um cameraman… Sentia que isso não me ia fazer feliz.
Precisava da parte criativa e sabia que tinha jeito. Sempre gostei de fazer as minhas brincadeiras, é isso que me preenche. Gradualmente, o feedback foi ficando maior – começou no bairro, passou para a comunidade, furou a cultura Hip Hop e alargou-se a nível nacional. O público foi crescendo e passando gerações. Sinto que há pessoas que não ouviram trabalhos meus na altura em que saíram e que agora os vão descobrir e gostam deles. Isso é o maior elogio, porque significa que a música não tem data de validade e continua a soar-lhes inspiradora.
Quem foi a tua maior inspiração no mundo da música?
Sempre fui obcecado pela cultura Hip Hop. Queria saber tudo: comprava revistas, via videoclipes, estudava, queria ter informação… Se essa Cultura fosse uma mulher e me perguntasses “O que gostas mais nela, os olhos, os lábios?” eu respondia “Nada disso, gosto dela toda.” Quero conhecer o dedo do pé, o mais pequeno pormenor.
Ouvia muito Wu Tang Clan, Mobb Deep… Até mesmo The Fugees – que tiveram um enorme sucesso com o álbum The Score, que furou para o mainstream e ajudou a cultura Hip Hop a tornar-se mais popular para uma certa geração.
Havia duas sonoridades mais predominantes nos EUA nos anos 90. East Coast, West Coast. Nova Iorque, Los Angeles. Eu preferia a sonoridade nova iorquina. Também adoro a outra – é musical, mais funk, menos dark.
De onde surge o título deste novo álbum, Mechelas?
O título não me apareceu logo no início. Sabia que queria começar esta compilação com o Boss AC e terminar com uma música minha. Pelo meio, era sem preocupações.
Mechelas significa “cabeças”. Havia outros sinónimos… Carolas, marmitas… Mas optei pelo primeiro, por ter a palavra Chelas. Além disso, este álbum tem várias Hip Hop heads (cabeças do Hip Hop), pessoas que estão por dentro da cultura.
Como surge este Sendo Assim, a tua primeira música a solo em mais de dez anos?
Não tenho uma resposta concreta… Deixo o tempo andar, não gosto de pôr deadlines nas minhas cenas e acabo por ir dando prioridade a outros projetos. A brincar, a brincar, passaram doze anos! Estou sempre ocupado e, tal como digo nessa música, não gosto de ter esse tipo de pressões. Se colocar um prazo para o lançamento do álbum, sei que ele nunca vai sair.
O que podes dizer sobre este novo álbum?
Foi tudo ao sabor do vento, não pensei muito Nem sabia quantas faixas queria! Foi tipo “Já chega, está bom!”. A tracklist está organizada de forma cronológica, com a ordem com que as músicas foram saindo no site e no YouTube – não teve um planeamento do estilo “Esta fica melhor depois desta”. Quanto às colaborações, há artistas com quem já tinha trabalhado e outros com que não. Sem querer, acabei por reunir um enorme leque de variedade! Artistas de Moçambique, do rap angolano, uma rapper brasileira… Aconteceu!
No início da tua carreira, associaram-te bastante ao fado. Como aconteceu isso?
O meu primeiro álbum, em 1999, tinha muitos samples de fado. Mas era o que eu tinha em casa. As pessoas gostaram da mistura e quiseram associar-me a isso, quiseram dar-me o título de pioneiro. Eu não gosto de ter louros quando não são meus. A verdade é que tenho tido bastante ligação ao fado, sim: já me chamaram para uma compilação de Carlos Paredes (onde fiz um instrumental chamado Viva) e fiz uma homenagem à Amália, Ethos. O Jorge Fernando também me chamou para participar numa música com ele. O que aconteceu foi que, logo no segundo disco, afastei-me desse Universo. Talvez até propositadamente, porque detesto caixinhas. Não queria ficar rotulado como estando relacionado com o fado, detesto ter de ser previsível.
Quando escreves, é espontâneo ou precisas de estar num ambiente calmo e silencioso?
Estou sempre a apontar palavras. A última que apontei foi “saudita”. Posso colocá-la no contexto que quiser, é uma palavra que nunca rimei.
Onde vais buscar ideias para as tuas letras?
Pesquiso online e tenho dicionários de rimas, mas uso acima de tudo a cabeça. Até porque há palavras que rimam mesmo não tendo finais ortograficamente iguais. Às vezes, as pessoas esquecem-se de que nem só a última sílaba pode rimar…
Como assim?
Existem tantos níveis da rima… E eu entusiasmo-me tanto com isso. Na rima, já me considero um mestre – mas um mestre sempre em busca do próximo nível.
Até as consoantes podem ajudar a fazer rimar algo que não rima. Além disso, podem contribuir para o ritmo. Percebi isto numa aula de Português, no nono ano, enquanto uma professora nos falava dos Lusíadas e dizia “Sabem porque há aqui tantos f’s? Para representar a luta de espadas”. Isso abriu-me a mente para sempre! No Sendo Assim há uma sonoridade muito sibilante. Nesse caso, deixei o meu corpo falar. Deixei-me ir e respeitei o que ele dizia.
Supondo que todas elas são especiais, há alguma música que seja a tua favorita?
Esta música nova é uma das especiais. 16/12/95 (Sofia) também. Já tinha vindo a fazer storytellings e até agora acho que este é o mais complexo e bem conseguido. O desafio de contar uma história é fazer com que, apesar de aquela situação ter acontecido na altura em que fiz a música, se torne uma mensagem intemporal.
O Solteiro, com o Regula, também é especial. Tinha uma visão tipo “A música vai ter isto. vai falar disto” e foi concretizada. O produto final saiu ainda melhor do que esperava.
Se pudesses escolher alguém com quem fazer uma música, qualquer pessoa, quem escolhias?
Escolhia alguém com quem já toquei há pouco tempo, em Londres, The Alchemist. É produtor e rapper.
A TV Chelas tornou-se uma montra para muito talento nacional. Como tem sido a experiência?
Tem sido boa. Sinto que temos feito algo pela cultura Hip Hop nacional. Temos tido bom feedback. Quando as coisas ficam muito mainstream, acaba por criar-se uma poluição à volta, comentários de pessoas que não percebem do assunto. Prefiro ter algo mais underground, no cantinho, entre pessoas que percebem do que falamos, que possam ter uma discussão agradável e trocar boas ideias.
Na TV Chelas não tenho de explicar nada. parto do princípio que as pessoas já sabem. Se não sabem, pesquisem.
Foi muito importante para mim contribuir com a divulgação dos instrumentais e dos acapellas do álbum novo na TV Chelas. Tem sido um feedback estrondoso, com várias pessoas a fazerem remisturas. Sentir que inspirei alguém e que dei uma ferramenta a um miúdo para ele perder umas horas a ser criativo: Isso preenche-me.
Como é para ti lidar com os fãs?
Fico muito contente por ter pessoas que gostem do meu trabalho. E se um miúdo novo, que não ouviu a música na altura em que ela saiu, a descobrir agora e ela ainda resultar… Isso é um grande elogio. As pessoas podem ir atrás do impacto imediato, do sucesso. Agora, alguém que ouve sem perceber o contexto e gosta só pela música… É uma grande vitória.
O Sendo Assim teve um feedback interessante por parte dos mais velhos. Recebi muitas mensagens a agradecer por fazer rap para pessoas com mais de 30 anos. É um comentário que faz pensar! Esta música tanto pode tocar pessoas mais adultas como um adolescente culto e interessado – este último não se vai sentir alienado pelos temas. Hoje há muitas músicas que não puxam os adultos, que podem estar noutra e não se interessar já com certas conversas. Tenho quase 40 anos e acho que este ponto está a meu favor.
E quanto aos haters, como lidas com eles?
São uma minoria. Recebo muito amor, sou mesmo mimado. Comparando com todos os artistas que conheço, o meu nível de haters é baixíssimo… Mas eles existem e é importante que existam, até porque preciso dessa energia! Quando estou a escrever e quero aquela postura típica do rap, de estar chateado com alguma coisa, de mandar punchlines e dicas a alguém, “Tu és assim, tu és assado” é aí que tenho de ir buscar essa energia. Se fosse 100 % real com a minha vida, só fazia músicas tipo Backstreet Boys “Obrigada aos meus fãs por todo o carinho”. (risos)
Mesmo nas músicas sobre amor que faço, tento sempre puxar pelo drama, pela relação turbulenta, por aquilo que não acabou bem. Como se estivesse a fazer um filme! Afinal, quem quer ver um filme onde dois gajos se conhecem e é tudo lindo até ao fim?
[Fotos: cedidas pelo entrevistado]