Desabafos de um Universitário com… Guilherme Antunes
Guilherme Antunes trocou a calma do Alentejo pelo ritmo acelerado de Lisboa. Entre saudades de casa, vida universitária e criação de conteúdo, acabou por transformar a sua rotina numa companhia para muitos jovens que vivem a mesma experiência.
Trocar a paz do Alentejo pela correria de Lisboa é uma mudança que pode parecer radical. Quais foram os maiores desafios que tiveste de enfrentar no primeiro período de adaptação à capital e ao ritmo lisboeta?
Foi uma mudança gigante, sem dúvida. Eu estava muito habituado à calma do Alentejo, onde tudo é mais tranquilo, e de repente estou em Lisboa com um ritmo completamente diferente. Um outro desafio, talvez o mais complicado, foram as saudades da minha família.
Ainda que as videochamadas diárias e as idas ao Alentejo todas as semanas ajudem, nada é como estar com eles todos os dias. Ainda assim, fui um sortudo porque vim viver com uma amiga de infância, quase como uma irmã mais velha para mim, que me ajudou bastante na adaptação. Sem ela sinto que teria vivido uma experiência muito diferente e até mais difícil.
Diz-se que ser um estudante deslocado é como tirar uma segunda Licenciatura em Gestão Doméstica. Entre gerir orçamentos, cozinhar, tratar da roupa, e todas as outras tarefas domésticas, qual foi a maior peripécia que tiveste de enfrentar?
No meu caso a gestão doméstica não foi algo totalmente novo, pois desde cedo que sempre tive curiosidade em fazer todas as tarefas domésticas que via os meus pais a fazerem. Desde pequeno que já ajudava em casa. Em relação a cozinhar, como tenho a sorte de ir a casa todas as semanas, consigo trazer algumas refeições, como é o caso das sopas, que dão mais trabalho a fazer.
Ainda assim, sinto que pequenas coisas que antes não valorizava, agora fazem parte da minha rotina.
Muitos jovens que te seguem estão na mesma situação: Longe da família, dos amigos, dos lugares de infância e dos cozinhados das mães. Quando começaste a criar conteúdo e a partilhar o teu dia a dia, tinhas noção de que irias acabar por te tornar numa espécie de modelo para estes jovens que também vivem entre malas e viagens ao fim de semana?
No início não pensava muito nisso, porque comecei a criar conteúdo como uma forma de me distrair das saudades de casa e também para os meus pais estarem mais perto de mim e conseguirem perceber como eram os meus dias.
Até que começo a receber mensagens e comentários de pessoas a dizer que os meus vídeos eram como uma terapia para elas e que as ajudavam nos dias mais difíceis. A partir desse momento a forma como eu via o TikTok mudou radicalmente, porque fez-me perceber que às vezes uma coisa que para mim é só um vídeo normal, para outra pessoa pode significar muito mais do que isso.
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Viver longe de casa exige uma grande resiliência emocional. Como é que lidas com as saudades de casa nos dias mais difíceis em que tens trabalhos para entregar ou exames para estudar?
Há dias em que custa mais, principalmente quando estou mais cansado ou com muitos trabalhos da faculdade. Às vezes são coisas simples, como ter saudades da comida de casa ou do silêncio do Alentejo. O que me ajuda é pensar que é um esforço temporário e que faz parte do caminho que quero construir.
E claro, saber que ao fim de semana volto a casa, ajuda sempre. Também tenho noção de que sou um privilegiado por ter a possibilidade de ir a casa todas as semanas, coisa que alguns colegas não conseguem, especialmente quem vem das ilhas ou de mais longe.
Como é que equilibras as exigências do teu curso com a criação de conteúdo? O facto de viveres sozinho dá-te mais liberdade criativa para gravares quando queres ou torna tudo mais difícil devido à gestão das restantes tarefas?
É um equilíbrio constante. Há dias em que estou mais focado na faculdade e outros em que consigo dedicar mais tempo aos vídeos. Acho que o facto de viver com duas amigas pode condicionar um bocado os formatos que gravo, por isso acabo por ter mais liberdade criativa no Alentejo, até porque em Lisboa a minha rotina é muito repetitiva.
No fundo o meu conteúdo é a minha rotina, por isso sinto que não se torna assim tão difícil de conciliar. Diria que a parte mais demorada e exigente é a edição, tendo em conta que eu gravo, edito e publico tudo no próprio dia.
Que dicas darias a um estudante que está prestes a embarcar na aventura de carregar o sufixo “deslocado” no seu estatuto?
Diria para não se cobrarem demasiado no início, porque a adaptação leva tempo. É normal sentir saudades e sentir que não pertencemos totalmente àquele lugar, mas acima de tudo é uma fase que nos faz crescer muito. Acho que o mais importante é criar pequenas rotinas que nos façam sentir bem e não esquecer que não estamos sozinhos nessa experiência, existem várias pessoas exatamente na mesma situação.
Artigo de Leonor Cerva Inácio




































