Entrevista | Catarina Carvalho: A mudança como destino
Transitando para um ambiente de regras maleáveis, a rotina habitual, marcada por horários fixos, acompanhamento 24/7 e vínculos seguros, dá lugar a geometrias inconstantes, onde a liberdade e a responsabilidade caminham [lado a lado].
Catarina Carvalho, Psicóloga Educacional, declara que a emancipação encoraja a “aquisição gradual de habilidades, que reduzem o perfecionismo e mitigam a resistência à falha”, configurando uma gestão autónoma de expetativas, metas e prioridades.
Mediante um método de avaliação de exigência elevado, a resiliência desvela o escudo, que afasta o fantasma do insucesso?
O Ensino Superior proporciona um confronto inevitável com situações, baseadas numa nota baixa ou numa época de exames conturbada, sendo a capacidade de continuar a tentar, após um resultado frustrante, o que [de facto] causa impacto.
De acordo com Carol Dweck, se encararmos a inteligência ou a aptidão, enquanto elementos intrínsecos, o fracasso parecerá a evidência de que não somos capazes, mas se acreditarmos que o potencial pode ser cultivado, o rótulo de incompetência passa a indicador de percurso, fundamentado numa mentalidade de vanguarda.
A adaptação requer, assim, o desapego a fórmulas gastas e o abraço a padrões desconhecidos, trocando a solidão pelo estudo em grupo, substituindo sessões extenuantes por blocos curtos ou alterando a secretária pelo movimento, visto que a persistência cega no erro [por mera familiaridade] manifesta a derradeira armadilha.
O stress, alimentado pela competitividade (in)consciente, transforma sonhos em momentos de exaustão precoce, que comprometem o rendimento [a longo prazo]?
A ambição evidencia uma força motriz, orientada para a evolução, que, quando se desloca para a comparação externa ou para crença de que o mérito pessoal advém, apenas, de um bom desempenho, instala um ciclo de vulnerabilidade ingrato, movido pelo medo ou pela fuga.
Quebrando o cenário de desgaste, o restabelecimento da ligação à curiosidade ou ao gosto pela área escolhida impede que o propósito da aprendizagem se desvaneça numa corrida, que anula a reflexão: “estou a fazer isto por mim ou para provar algo a alguém?”.
Impulsionando um acelerador de talentos, a obtenção do diploma transcende o conhecimento. O networking vale tanto ou mais do que uma média final?
70% a 80% das vagas de emprego nunca chegam a ser publicadas, já que o respetivo preenchimento ocorre, através do tradicional “boca-a-boca”, em que um/a amigo/a se lembra do nosso nome ou nos antecipa uma oportunidade de recrutamento.
O trabalho em rede, ao contrário de um exercício de falsidade ou de conveniência egoísta, gera relações, que permitem a partilha de referências, contactos e experiências.
No fundo, a qualificação abre portas, à medida que a proximidade nos convida a entrar.
A dificuldade na imposição de limites afeta a produtividade de uma liderança, que separa agilidade saudável e ansiedade corporativa?
Reconhecendo que a disponibilidade rima com empenho, a autossabotagem, que consome e sacrifica o descanso, fomenta o receio crónico de desiludir, de dizer que “não” e de carregar uma carga intensa às costas, camuflada sob a ilusão de que a conquista possui, em geral, um preço a pagar.
A ausência de barreiras claras leva a uma acumulação, assente em entregas medíocres e em espíritos, desprovidos de motivação, que atuam, segundo o volume de funções, e evitam a assertividade de um “só consigo enviar o relatório na sexta-feira”, solicitando tomadas de decisão equilibradas, em prol da sanidade e da excelência.
Com planos, sustentados em perícias técnicas, a estrutura curricular cria um desfasamento crónico, face às necessidades de uma carreira sustentável?
O foco na componente teórica e/ou operacional promove uma preparação de base sólida essencial, uma vez que esperamos [a título de exemplo] que um/a especialista em Engenharia realize os cálculos devidos para que um pilar não ceda, embora o domínio da matéria esteja longe de garantir, de forma isolada, a duração ou a qualidade de uma profissão.
Em paralelo, a prática demonstra que o êxito depende, também, do “saber-ser”, composto por valências transversais, que ficam fora do currículo, sobretudo a comunicação eficaz, o pensamento crítico ou a mediação de conflitos, presentes, muitas vezes, em núcleos ou em atividades de associativismo, projeto, voluntariado ou estágio.
O conceito de automação, fruto do avanço da Inteligência Artificial, assume um papel preponderante, que acarreta desafios humanos?
A criatividade, aliada ao raciocínio lógico, fornece uma vantagem distintiva na resolução de problemas ou no cruzamento de ideias, colmatando a complexidade da computação, que se destaca na execução de tarefas mecânicas ou na réplica de modelos estandardizados.
Deste modo, a colaboração e a regulação emocional ganham um peso renovado numa era, definida pela crescente globalização da informação, que devolve tempo para o desenvolvimento de atributos humanamente insubstituíveis, desde o discernimento à empatia.
Lidando com análises de performance permanentes, a humildade intelectual e a escuta ativa estimulam o upgrade de qualquer recém-licenciado/a?
Sem dúvida, até porque a realidade empresarial traz feedback individualizado [nem sempre] positivo, incidindo, com frequência, em temáticas, que julgávamos conhecer.
O progresso dita, por isso, uma postura dinâmica, que ouve a crítica e ajusta o comportamento, em detrimento de uma reação defensiva, justificativa ou impulsiva, dado que o verdadeiro crescimento reside, acima de tudo, numa maturidade flexível e num olhar estratega.
O futuro pede…?
… coragem para largarmos quem fomos, a favor de quem podemos ser.




































