Entrevista | Tamára Simão: A coreografia das palavras
Com um percurso, recheado de prática artística, pensamento político e sensibilidade literária, Tamára Simão (aka. @readstamara) constrói uma identidade, que interpreta o mundo envolvente, enquanto número cénico de ideias e afetos.
O “caos perfeito” equilibra a disciplina do corpo e a inquietação da mente, priorizando análises autênticas e olhares críticos sobre o fôlego contemporâneo de literaturas universais, que recusam as fórmulas fáceis do algoritmo.
Integrando a onda de bookstagrammers, o fascínio pelo caminho mágico das histórias desabrochou de um impulso antigo, que ganhou palco, ou de uma paixão recente, que encontrou maturidade?
A leitura sempre foi o meu refúgio e descoberta. Sendo filha única, os livros eram a companhia constante nos intervalos do estudo ou da dança. Há cerca
de quatro anos, decidi partilhar este universo no Instagram, inicialmente como um diário pessoal para preservar as memórias e sensações que associava a cada fase da vida. Com o tempo, senti necessidade de ir além do registo e desenvolver uma opinião crítica.
Recentemente, essa partilha expandiu-se para o vídeo, o que me permite comunicar de forma mais dinâmica, próxima e direta com quem me acompanha.
14 mil seguidores. A comunicação transparente fornece uma vantagem competitiva, que viabiliza uma partilha autêntica e verdadeira?
Embora seja tentador seguir tendências ou opiniões dominantes para gerar interação, priorizo a fidelidade ao meu gosto pessoal. Não sinto constrangimento em divergir, mesmo perante obras amplamente elogiadas; acredito que é essa pluralidade de perspetivas que enriquece o debate literário. Alcançar 14 mil pessoas foi inesperado e a responsabilidade que daí advém traduz-se na manutenção dessa honestidade.
Os números não podem sobrepor-se à integridade do que construí.
O panorama atual, marcado por uma fragmentação da atenção e por um consumo acelerado, desafia a profundidade de hábitos culturais, onde existe “Muito Barulho por Ler”?
Vivemos tempos de atenção fragmentada, onde se lê muito, mas nem sempre com a pausa necessária para a reflexão. O meu intuito ao partilhar conteúdos é precisamente incentivar uma relação mais consciente com os livros.
Nesse contexto, nasceu o clube “Muito Barulho por Ler”, focado na obra de William Shakespeare. É um projeto de nicho, focado num autor cuja complexidade resiste ao consumo imediato. Sei que não é um conteúdo de massas, mas o impacto não se mede em métricas absolutas: se despertar o interesse de alguns para uma leitura mais profunda, o objetivo está cumprido.
William Shakespeare escreveu sobre ambição, ciúme, poder e amor há 400 anos. A sobrevivência dos clássicos reside na beleza da linguagem ou no espelho da essência humana?
A sobrevivência dos clássicos reside na união entre a beleza estética da linguagem e a crueza com que espelham a condição humana. Shakespeare não só
compreendeu as nossas emoções mais profundas, como as expressou com uma densidade poética incomparável.
Ao contrário de muitos textos contemporâneos desenhados para a rapidez, os clássicos exigem tempo e releitura — e é nessa exigência que reside o seu
maior valor. Num mundo acelerado, eles obrigam-nos a abrandar, provando que os grandes dilemas da existência permanecem atuais, independentemente dos séculos que nos separam.
Nutrindo, muitas vezes, um “receio” de obras herméticas ou aparentemente distantes da agitação do século XXI, a geração TikTok exige experiências estimulantes, viscerais e imediatas?
O imediatismo das redes sociais molda, inevitavelmente, os hábitos de consumo. É mais desafiante promover Shakespeare do que acompanhar um fenómeno viral, pois existe uma preferência clara por experiências acessíveis e viscerais. Não faço um juízo de valor — eu própria aprecio leituras diversificadas — mas considero essencial distinguir o entretenimento rápido da obra densa
e reflexiva.
O segredo não é rejeitar o imediato, mas garantir que não nos limitamos a ele, mantendo a consciência sobre o que cada tipo de leitura nos oferece.
A banalização crescente do erro, resultante de um poço de scrolling, likes e mensagens, carece de mais ativismo, que rejeite o desleixo linguístico, preservando o rigor em contexto online?
O meio digital favorece a fluidez e a informalidade, o que gera uma proximidade essencial na comunicação. Contudo, ao trabalhar com jovens, noto um desleixo linguístico crescente que pode ser preocupante. O desafio não passa por um ativismo rígido contra a transformação da língua, mas por encontrar um equilíbrio: preservar o rigor e a clareza sem sacrificar a naturalidade que as redes exigem. É possível ser acessível sem ser negligente com a palavra.
2026. O futuro exige…
… consciência, reforçando o pensamento crítico e a empatia, uma vez que acredito na valorização da cultura como um espaço de reflexão coletiva, que incentiva, de forma acessível e significativa, a desaceleração e a proximidade.




































