Entrevista | Café Joyeux: O grão solidário
Nascendo de uma premissa rara, a transformação de gestos quotidianos em atos inclusivos, assentes numa missão especial, singular e estrutural, valoriza o potencial humano, acima de qualquer estigma ou preconceito.
Filipa Pinto Coelho, Presidente Executiva e Co-Fundadora, explana que “a criação de oportunidades reais de emprego contribui para a plena cidadania e para o resgate da dignidade de quem, durante décadas, foi mantido à margem.”
A construção de um modelo de negócio, onde o propósito manifesta o próprio motor, impõe a adaptação de processos, cultura interna e olhares sociais. O erro ganha um papel fulcral em contextos de aprendizagem e crescimento contínuo?
Num projeto como o Café Joyeux, o propósito da inclusão faz parte do ADN do próprio negócio. Na sua origem e conceção, foi preciso estudar e planificar a operação, conscientes de que esta deveria ser compatível com ritmos, processos e, sobretudo, com o pressuposto do respeito pela individualidade de cada colaborador com DID em que investimos. O erro faz parte do caminho, como em qualquer contexto de aprendizagem ou negócio, mas aqui é encarado com tempo, respeito e intenção pedagógica.
Cada desafio é uma oportunidade de crescimento, tanto para os équipiers (jovens com dificuldades intelectuais e do desenvolvimento que trabalham nos Cafés) como para a restante equipa e clientes.
Com métricas, que não cabem em relatórios, como a autoestima, o sentimento de pertença ou a independência, a integração de 38 équipiers espelha histórias de superação, coragem e “amor”?
Sem dúvida. E este é claramente, o maior desafio na compreensão global de um negócio social como este: entender para além dos números e das métricas comuns. Os cafés-restaurantes Joyeux têm métricas de gestão equivalentes na indústria da restauração — como o foodcost ou o ticket médio — mas também têm de ser avaliados à luz de indicadores menos simples de medir, como referem na questão.
O sentimento de pertença, a auto-estima, a alegria de uma vida autónoma, o sentido de superação, o aumento de qualidade de vida nas famílias, a alegria em estado puro a que assistimos diariamente em cada Café, são apenas alguns destes fatores que, em conjugação com os primeiros, constroem um modelo de impacto que a todos envolve — colaboradores, equipas e clientes.
No caso da Nova SBE, orgulhamo-nos de, ao longo deste primeiro ano, termos proporcionado a troca de olhares em mais de 14 mil cafés servidos e mais de 45 mil clientes atendidos. O resultado: cada colaborador representa uma história de superação, um percurso de integração real e sustentada, que transforma, através do olhar, do sorriso, quem ousa abrir o seu coração.
São Bento, Cascais, Telheiras, AGEAS e NorteShopping revelam um padrão de excelência em momentos de lazer, trabalho ou estudo, que prova que a diferença declara uma competência universal?
Cada Café Joyeux reflete o mesmo compromisso: qualidade, consistência e uma experiência genuína e humana.
Seja num momento de pausa, trabalho ou encontro, o padrão mantém-se. A presença em diferentes contextos prova precisamente isso, que a diferença não limita a excelência, antes a reforça. Todos somos capazes quando há oportunidade. E o facto de darmos oportunidade de emprego a estes jovens com algum tipo de limitação cognitiva, só reforça a nossa responsabilidade com a qualidade do que servimos e com a profissionalização do serviço que prestamos. Porque é aqui que podemos desmistificar uma ideia errónea de que a solidariedade não possa ser compatível com a excelência e a qualidade. Garantindo esta qualidade, não existirão razões para não juntarmos o útil ao agradável, tendo uma refeição deliciosa, num local agradável e com um propósito associado.
Fornecendo um conjunto de experiências, pensadas e confecionadas “com o coração”, a entrada no campus da Nova SBE marca um capítulo de proximidade a uma geração emancipada e mobilizadora?
Sem dúvida. Ao fim de um ano de funcionamento, esta celebração assinala a consolidação de um projeto pioneiro.
O Café Joyeux da NOVA SBE mostrou que é possível integrar equipas inclusivas em ambientes académicos exigentes, com impacto real nas pessoas e na comunidade, num ambiente em que a exigência operacional é elevada. O que começou como um desafio inovador, tornou-se hoje uma realidade estruturada, com rotinas, relações e uma equipa confiante e autónoma.
A presença no Ensino Superior, alicerçado na meritocracia e na alta performance, sugere uma abertura a lideranças de impacto, que elevam a inteligência emocional e a pluralidade funcional?
A entrada no Ensino Superior representa um passo relevante na afirmação do modelo. Num contexto associado à meritocracia e à alta performance, o Café Joyeux demonstra que inclusão e exigência coexistem e se reforçam mutuamente. Este contacto diário contribui para formar uma nova geração mais consciente, mais empática e mais preparada para liderar com impacto.
O futuro passará pela expansão do conceito e…?
… pela quebra de mais barreiras.
Acima de tudo, passa por inspirar outras empresas, outras marcas e a sociedade a repensar o acesso ao trabalho e o valor da diversidade. Se o Café Joyeux deixar de ser exceção para se tornar exemplo replicado, então estará a cumprir o seu propósito. Um dia, os Cafés Joyeux serão apenas bonitos e simpáticos cafés-restaurantes amarelos com propostas deliciosas e uma equipa que não exclui, como muitas outras podem fazer. O caminho passa, também, por nos afirmarmos como um espaço de rotina com propósito, integrado no dia a dia das pessoas e das comunidades. Queremos continuar, com a ajuda de cada pessoa, de cada empresa, de cada organismo público ou privado — a co-construir um caminho de soluções win-win — aquelas que satisfazem necessidades diárias – seja uma refeição, seja um serviço de catering numa empresa, seja a entrega de café em grão ou cápsulas, seja um team-building ou um jantar de aniversário — em momentos agradáveis e inesquecíveis pelo impacto que podem gerar.




































