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Desporto

Entrevista: Naide Gomes e aqueles míticos 7 metros

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Sentes que o Desporto teve um importante contributo para a tua formação enquanto pessoa e profissional?

Sim, sem dúvida. Sou o que sou graças àquilo que fiz enquanto atleta. O Desporto deu-me essa bagagem, educou-me, fez de mim a pessoa que sou hoje. Para começar, deu-me autodisciplina: sou muito disciplinada e rigorosa, sei perfeitamente aquilo que quero da vida. E devo isso ao desporto, que me deu ferramentas fundamentais para que crescesse enquanto atleta, pessoa e profissional.

Que dimensão pode o Desporto Universitário assumir numa carreira de um atleta de alta competição?

No meu caso, foi difícil de conciliar a alta competição com a frequência do Ensino Superior, não vou mentir. Demorei mais algum tempo a acabar o curso do que aquele que era suposto. Houve alturas em que tive de estar fora em Campeonatos Mundiais, Jogos Olímpicos… Aí, escolhi dar prioridade àquilo que no momento era mais importante para mim – que era o Atletismo.

Falas de dificuldade em conciliar os estudos e a alta competição. Para ti, qual foi a parte mais difícil?

Eu estudei Fisioterapia, que só de si já é um curso muito técnico. Nunca tive horários adaptados… Se faltasse a uma aula prática, não havia nenhuma extra, claro. Havia essa dificuldade e tenho pena de não ter tido, por exemplo, um tutor que me pudesse ajudar. A nível de exames e frequências tive algumas facilidades, isso sim. Se não conseguisse fazer na época designada para tal, tinha a vantagem de poder remarcar para uma altura em que estivesse presente. Desde que o professor estivesse de acordo, isso acontecia. Já quanto ao estágio, podia fazê-lo depois dos Mundiais ou dos Jogos Olímpicos, fora dos timings da faculdade.

Ganhaste uma medalha de prata nas Universíadas, na Turquia… Podem estes considerar-se uma réplica dos Jogos Olímpicos?

Ui! Já lá vão tantos anos! Fui medalha de prata, sim. Foi bom, é um evento de grande nível! Não têm a dimensão dos Jogos Olímpicos, mas são sem dúvida uma pequena réplica. Com muitas semelhanças aos Mundiais ou Europeus de Atletismo. Gostei imenso de participar nas duas edições a que fui, ambas de enorme categoria e dimensão.

Consideras que Portugal pode vir a ser anfitrião de um evento como as Universíadas?

Pode! Acho que sim! Temos todas as condições. Para começar, o clima. E mesmo em termos de locais, era bem possível. Claro que não podia ser um evento centrado num só local, teria de se dispersar de Lisboa e realizar as provas de várias modalidades noutras cidades. Mas acredito que temos todas as condições reunidas.

Tens algum conselho para os jovens que pensam em praticar Desporto Universitário?

O conselho que dou é que sejam felizes com aquilo que fazem. Independentemente da modalidade que escolherem, que a pratiquem porque gostam. Nem que seja maioritariamente pelo convívio entre colegas ou pelas saídas que vão ter em competição. O mais importante é que se mexam, porque é essencial para a saúde física, para o bem-estar emocional e para o crescimento pessoal.

Tens algum momento da tua carreira enquanto atleta que não consigas deixar de destacar?

Quase todos! Tive muitos positivos e alguns negativos também – que me fizeram crescer. Quanto aos negativos, tenho de falar dos Jogos Olímpicos de 2008 – nos quais eu era a favorita ao Ouro e falhei. Custou horrores, era o sonho de uma vida. Mas fez-me crescer, pensar que nada é garantido e que na vida há coisas mais importantes do que ganhar medalhas. Permitiu-me perceber que há muitos outros caminhos, mais pontos positivos na vida para além dos Jogos e das medalhas. Além disso, uma carreira não se resume a um momento, mas a vários.

Quanto a situações memoráveis no bom sentido, lembro-me da minha primeira medalha internacional. Foi um marco que contribuiu para todo o meu sucesso, que me deu ânimo e motivação. Depois existem aqueles momentos em que alcancei metas que defini para mim, como o dia em que cheguei aos sete metros.

Qual é a sensação de saltar sete metros?

Ui… É uma sensação fantástica, um sonho que idealizei e para o qual trabalhei muito. Chegar à barreira mítica dos sete metros… Não é para todos, é surreal. Sentes que estás a voar, depois vês que passaste essa marca e pensas “Uau! Sou uma Super Mulher!”. Mas depois caí e pensei logo, “Ok, saltei 7 metros. Mas vamos lá continuar, que agora quero muito mais.” Nunca acabam, os objetivos.

Como é a vida sem a competição?

Na minha vida, o Desporto esteve sempre presente. Em tudo o que faço, meto sempre alguma competição. Quero sempre melhor e não descanso enquanto não conseguir. Vou estar sempre associada ao Desporto – neste momento sou Fisioterapeuta e trabalho com os atletas. Mantenho-me sempre ativa. Uma pessoa que andou a vida toda em alta competição e, de repente, chega a uma fase em que já não tem esse estímulo, sente muita falta. Temos de fazer um luto, tentar aceitar. Eu já aceitei, mas admito que no início que me custava imenso acordar todos os dias e não ter aquele objetivo de ir treinar e competir.

[Fotos: cedidas pelo entrevistado]

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